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SOBRE GOSTAR DE XOXOTAS E ROLAS

  • Foto do escritor: Van
    Van
  • 6 de mar. de 2022
  • 3 min de leitura

Um dia desses, estávamos eu, Arthur, Julia e uma amiga (Arthur, Julia e eu somos um trisal e se você não sabe quem são eles, pode ler aqui para entender um pouco melhor), e Arthur contou que, na primeira vez em que eu saí com uma mulher (um date em 2020 só eu e uma mulher que conheci no Tinder), ele ficou apreensivo se eu iria, depois desse date, achar que sexo com mulher é infinitamente melhor, que meu negócio era só vulva e que eu não iria nunca mais querer saber de pênis e, por consequência, do pau dele.


Ele já tinha me contado isso antes, então o que foi novidade para mim foi o comentário da Julia. Ela falou que hoje (na época ela nem me conhecia pessoalmente) ela poderia dizer com absoluta certeza que seria impossível eu abandonar sexo com homens, porque ela vê (quando transamos os 3) o quanto eu gosto de pica. Da mesma forma, ela também pode afirmar que eu gosto de ppk.


Adoro quando esse tipo de coisa acontece, quando alguém fala alguma coisa sobre a minha pessoa que confere com o que eu penso sobre mim. Não sei bem o porquê, mas acho que tem a ver com eu estar sendo transparente, eu estar mostrando quem eu sou. E é tão autêntico que as pessoas percebem.


Isso aconteceu uma outra vez quando um amigo do Arthur passou um dia num passeio de barco com a gente. Ele falou para o Arthur (não foi na minha frente, foi só para ele) que ele podia ver que eu o amava de verdade. Desta vez eu fiquei intrigada com como o amigo podia falar isso de mim após passar somente algumas horas com a gente, mas, de qualquer forma, eu achei ótimo que o meu amor pelo Arthur era tão evidente.


Não lembro exatamente se foi quando eu comecei a fazer ménages com o Arthur (com mais uma mulher), ou se foi quando eu estava prestes a começar uma relação física com a Julia, mas eu estava contando para minha melhor amiga alguma dessas coisas e ela me fez uma pergunta: “Você não está fazendo isso pelo Arthur?”. Respondi de forma genuína que não era. Mas a pergunta ficou na minha cabeça. Acho que esse é um questionamento que a gente deve se fazer sempre – estou fazendo isso porque é o MEU desejo ou porque é o desejo dx outrx e eu quero agradar essa pessoa?


Além disso, eu ainda estava numa fase insegura de me identificar como bissexual. Então a pergunta acabou me ajudando a refletir mais sobre minha sexualidade. Demorou bastante tempo para cair a ficha de que meu desejo está ligado não só ao masculino, mas também ao feminino. Nem me lembro desde quando, mas eu sempre quis “explorar” sexo com mulheres. E minha fantasia era fazer isso junto com um homem (não sei o porquê). Não aconteceu com meu ex-marido, aconteceu com o Arthur (conto sobre uma das vezes aqui). Mas a todo tempo eu lia essa situação como eu, hetero, explorando o sexo com um corpo feminino, uma novidade, uma coisa diferente. Nem passava pela minha cabeça que fazia parte da minha identidade. E eu achava que ser bi era gostar igualmente tanto de homens como de mulheres. Mas não é. Existe um espectro grande dentro do que é ser bissexual – você pode se sentir mais atraído por um do que por outro, pode querer ter uma conexão emocional só com um ou com ambos, todo tipo de combinação é válido. Então primeiro eu tive que aprender isso, depois viver mais experiências, continuar ouvindo meu desejo, até o dia em que eu me toquei que, sim, eu sou bi. E tudo fez sentido, incluindo memórias de experiências de infância e adolescência que reforçavam que eu desde menina também tenho tesão por mulheres. Hoje a minha bissexualidade é tão nítida que eu penso “como que eu não percebi isso antes?!”. Tão nítida que até as pessoas - com quem me envolvo sexualmente - podem ver.


Há muitos anos, quando mal se falava sobre identidade de gênero, eu via programas na tv sobre poliamor ou sobre pessoas que amavam pessoas independente do gênero e eu costumava pensar que era a coisa mais bonita do mundo, você amar a pessoa por quem ela é e não ter restrição com o fato dessa pessoa ser um homem ou uma mulher. No fundo, acho que meu inconsciente, sabendo que meu desejo ia praquelas bandas, estava me mandando uma dica... mas eu precisei de muito tempo - quase 40 anos - para entender.


 
 
 

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© 2019 por Solteira aos quase 40

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